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Descanse em Paz

12 jul

Descanse em Paz

Escrito por: Robson Ortlibas

São 3 horas da manhã e todos estão dormindo na casa da família Azevedo, no bairro do Jardins, quando toca sem parar o telefone do lado da cama de Roberto. Ele e sua esposa acordam assustados com o barulho, acendem o abajur e Roberto atende ao telefone achando que só pode ser um trote a uma hora dessas.

Era a da Santa Casa de Ribeirão, do outro lado da linha a assistente social calmamente diz que encontrou seu telefone nos pertences de seu irmão caçula Osvaldo Azevedo, e conta-lhe que seu irmão sofrera um acidente grave de carro junto com sua esposa e sua filha, infelizmente ninguém sobreviveu. Naquele momento Roberto fica sem fala, atônito, pois a mulher acaba de dar a notícia de que seu único irmão, casado a pouco mais de 1 ano e pai há dois meses, morreu num acidente de carro. Roberto vinha lhe devendo uma visita para conhecer a sobrinha  mas sempre dizia que não conseguia um tempo para ir até Ribeirão Grande. Assim que desliga o telefone, Roberto dá a notícia à sua esposa, Elisa, e tomam a decisão de pegar o carro assim que amanhecer para cuidar de todas as providências necessárias para o sepultamento, pois não há mais ninguém pra fazer isso.

            Quando o dia amanhece, eles começam a arrumar as malas para ir em direção à Ribeirão Grande. Por volta das 06h30min, Roberto, Eliza, Henrique e Melissa –seus dois filhos- estão prontos dentro do carro, uma BMW X5 blindada e vidros escuros, pois Roberto tinha muito medo de seqüestro, pois havia sido vitima de um há 1 ano atrás, o que acabou deixando-o traumatizado. Então eles começam a viagem e pegam a estrada, passados alguns quilômetros , Elisa o lembra de que eles devem levar uma coroa de flores para o velório, pois não sabe se encontrará um lugar ou terá cabeça pra cuidar disso quando chegar na cidade. Então Roberto diz:

“Na primeira floricultura pararemos e compramos a coroa de flores.”

Passados cerca de 5 km eles avistam um cemitério na beira da estrada, onde ao lado há uma floricultura, um posto de gasolina e uma lanchonete. Eles aproveitam para tomar um café da manhã, abastecer o carro, e comprar a coroa de flores. Elisa nota que precisa trocar a fralda do Henrique e vai até o banheiro da lanchonete, Melissa fica sozinha sentada à mesa e Roberto vai até a floricultura enquanto deixa o frentista abastecendo o carro e checando os pneus, óleo e água do motor para poder viajar com segurança.

Quando Roberto entra na floricultura ele vê um senhor de idade bem avançada, com no mínimo seus 80 anos, de aparência frágil e ao mesmo tempo assustadora, pois seus olhos estavam quase completamente brancos, o que certamente dificultava sua visão, além de dentes horríveis, ou melhor, poucos pedaços do que um dia foram dentes em sua boca. Lá também se encontrava um Jovem rapaz que aparentava no máximo uns 25 anos, também de má aparência, esquisito e ao mesmo tempo sombrio, todo sujo, roupas rasgadas e com um olhar perturbador,  uma barba disforme que parecia não ser feita há semanas. Mas ignorando tudo isso, Roberto caminha até o balcão e conversa com o rapaz:

“Bom dia, eu gostaria de comprar uma coroa de flores, mas vocês têm alguma pronta pra eu levar agora?”

“Sim Senhor, temos várias já prontas”, responde o rapaz.

Então Roberto completa:

“E vocês podem gravar algo na faixa?”

“Sim, neste mesmo instante!” responde novamente o rapaz.

Sem sequer perguntar o valor, Roberto diz para escrever na faixa:

“FAMÍLIA AZEVEDO, DESCANSE EM PAZ”

E aponta para seu carro no posto de gasolina e diz: “Então você, por favor, coloque no porta-malas daquele carro preto ali fora, pois estarei na lanchonete com minha família.

O rapaz diz: “tudo bem, Sr. Azevedo, e meus pêsames”. Disse isso pois deduziu ser algum parente, por ter o mesmo nome da faixa. Roberto agradece e vai em direção à lanchonete.

Chegando na lanchonete, Roberto e Elsa conversam, Elisa diz:

“Não acho que deveríamos ter saído com tanta pressa e comer nesta espelunca, e você vá bem devagar na estrada, pois você terá sua família dentro do carro.”

Roberto já cheio de problemas e triste pela morte de seu irmão, cunhada e sobrinha que sequer ele chegou a conhecer, começam a discutir bastante, então nervoso diz:

“Todos agora pra dentro do carro, que temos pelo menos 8 horas seguidas de viagem até lá!”

Então todos saem do posto de gasolina com o carro e voltam para estrada sentido à Ribeirão Grande. Logo em seguida, seguindo sua BMW, um carro vermelho com todos os vidros escuros,  o carro é um Ford Maverick SS, rebaixado e com rodas largas, além de um barulho quase ensurdecedor vindo dos escapamentos. Seu estado era bem precário, não havia nenhum farol inteiro ou luz de seta, parecia mais um monte de aço retorcido com motor. Sai cantando pneus, levantando uma grande nuvem de poeira na beira da estrada. Roberto olha pelo espelho e vê aquele carro e toda a poeira em volta mas nem se dá conta, continua a dirigir pela estrada.

Roberto está andando a 70 Km/h, pois Elisa a cada minuto checa em seu marcador se ele está passando do limite, pois a estrada é estreita e tem 2 sentidos, o que torna quase impossível a ultrapassagem naquela pista, e vinham muitos caminhões no sentido contrário. Tudo o que Roberto quer neste momento é evitar mais discussões. Após alguns minutos, Roberto nota que o Maverick ainda está atrás dele, até que o carro começa a acelerar e alcançar a BMW –  o que não é difícil, visto que Roberto está bem devagar para uma estrada –  e cola em sua traseira, acelerando bastante e fazendo muito barulho, como se quisesse ultrapassá-lo mas ao mesmo tempo não. Até que Roberto nota que no banco do motorista era o rapaz da floricultura onde ele comprou a coroa de flores. Como ele já havia achado aquele rapaz bastante esquisito, ele não responde aos sinais do rapaz insinuando para encostar o carro e parar. Elisa diz a Roberto:

“Quem é este homem? O que ele está querendo?”

“É o rapaz da floricultura, e não me pareceu uma pessoa normal”, diz Roberto.

“Com certeza, ele parece um psicopata, não pare este carro em hipótese alguma!”, diz Elisa.

 Então Roberto acelera o seu carro, chegando a mais de 100 km/h, deixando o rapaz um pouco para trás. Neste momento todos na BMW estão assustados e tentando entender o motivo que estava levando o rapaz da floricultura a segui-los. Por um instante ele não mais o vê em seu retrovisor, o que lhes dão uma sensação de alívio.

Passados uns 10 minutos Melissa reclama que precisa ir ao banheiro, e Elisa diz:

“Filha, não há banheiro por aqui.”

“Mas eu vou fazer xixi nas calças, mamãe!” diz Melissa.

Então Roberto olha mais uma vez no retrovisor e nada vê além de poeira e asfalto, desta forma resolve parar no acostamento para Elisa levar Melissa na beira da estrada para urinar, pois ele acredita que o rapaz do maverick tenha desistido de sua perseguição maluca e sem nexo. Quando Melissa e Elisa descem do carro, e vão em direção aos arbustos,  Roberto vê pelo retrovisor  o velho Maverick bem ao fundo na estrada vindo atrás deles, desesperado Roberto grita para Elisa e Melissa:

“Corram!!! Aquele maluco filho da puta vêm vindo novamente!”

Neste momento Elisa puxa Melissa pelo braço e a menina ainda com a calça abaixada, urinando por todo o caminho e em sua roupa. Via-se a cara de pavor e desespero no casal.

O Maverick já estava bem próximo quando elas estão quase chegando no carro, ele chega ainda mais próximo e para o carro logo atrás da família, desce do carro com algo que parece ser um bastão de madeira, neste momento Elisa e Melissa conseguem entrar no carro, e o rapaz chega bem próximo do vidro ao lado dela, seu rosto era de alguém desesperado, ofegante – podia-se dizer que ele babava pelos cantos da boca – ou então o rosto de alguém muito perturbado, um psicopata, como disse Elisa minutos antes. Neste momento de desespero Roberto liga o carro e sai em disparada, derrubando o rapaz no acostamento, deixando-o no meio da enorme nuvem de poeira provocada pela arrancada do BMW. Roberto e sua família saem pela estrada sem nem mesmo olhar para trás.

“Você viu aquilo, Roberto? Aquele psicopata queria nos matar com aquele bastão!!!”  Diz Elisa quase chorando de desespero.

Roberto responde afirmativamente dizendo:

“Eu vi, ainda bem que consegui sair a tempo daquele desgraçado fazer algo”. E completa: “deveria ter dado ré e passado por cima do filho da puta”.

Elisa fica calada, porém com uma feição de aprovação, enquanto Melissa chora bastante com o susto e porque sua roupa está toda molhada de urina. Roberto diz às duas que despistar o maluco, ele parará em algum hotel na beira da estrada.  Elisa mais uma vez aprova a ideia de Roberto.

Mas passados 30 minutos, sem que eles notem, com o som do carro ligado e os vidros fechados, o Maverick chega bem perto do BMW e consegue encostar no para-choque traseiro e levemente eles sentem um empurrão em suas costas. Eles olham para trás e vêem o rapaz novamente, Elisa grita desesperadamente assim como Melissa também grita com medo, fazendo Henrique chorar sem parar, e Roberto nervoso olha e vê o rapaz gesticulando novamente e desta vez nota-se um certo olhar de nervoso, insinuando para eles encostarem o carro novamente.

Roberto joga o carro um pouco à direita e desacelera um pouco o carro, de forma que o Maverick ficou quase lado-a-lado  com o BMW. Então Roberto joga o carro bruscamente para sua esquerda, tentando jogar o Maverick para a pista contrária fazendo o rapaz quase bater de frente com um ônibus no sentido contrário, mas ele conseguiu jogar para o acostamento. Então ele volta para sua pista, Roberto volta a acelerar o carro novamente e desta vez o Maverick consegue manter a mesma velocidade do BMW. Elisa diz nervosa e desesperada:

“Acelera essa merda, Roberto!”

“Você acha que não estou fazendo isso porra!?” grita Roberto.

Mas a condição da estrada não é das melhores e ele se preocupa em não provocar um acidente. O rapaz acelera com toda a potência do Maverick e consegue emparelhar o carro com o de Roberto num momento em que não vinha nenhum veículo contrário. De repente, Roberto saca do porta-luvas sua arma, uma  „.45“, que ele comprou apos ser seqüestrado –  pensando em se proteger – , ele abre o seu vidro e antes do rapaz poder gritar qualquer coisa que ele possa ouvir, ele dispara sua arma em direção ao pneu do Maverick. Acerta o pneu dianteiro, de forma que o rapaz perdeu momentaneamente o controle e jogou o carro para a direita, de encontro com a parte lateral traseira do BMW, que também perdeu o controle batendo no guard-rail e capotando no sentido contrário da pista. Neste momento vem uma carreta que transportava toras de madeira e se choca com a BMW que estava no meio da pista de ponta-cabeça. Com o choque o carro da família – ou o que restou dele – foi parar do outro lado da pista no meio de uma plantação de milho. O rapaz do Maverick consegue controlar seu carro e parou no acostamento são e salvo, apenas assustado com tudo o que aconteceu.

Ele respira fundo, desce do carro com certa dificuldade, segurando um bastão que usa como bengala, por conta de um acidente que sofreu há anos, deixando sua perna esquerda mais curta que a direita, e foi caminhando até os destroços do BMW. A certa distância ele pôde ver os corpos de toda a família dilacerados e sem vida, ele se ajoelha, leva a mão ao rosto e começa a chorar por tudo aquilo que está vendo diante dele. Instantes depois ele se levanta, vai até seu carro e retira do porta-malas a coroa de flores que Roberto havia comprado e que não deu tempo de colocar no BMW, porque Roberto saiu muito rápido do posto, e ele estava até agora desesperado tentando alertá-lo e devolver a coroa de flores.

Ele leu a faixa na coroa que dizia:

“FAMÍLIA AZEVEDO, DESCANSE EM PAZ”

Então o rapaz pega a coroa, atravessa novamente a estrada e a pendura num pé de milho próximo aos destroços do BMW. E assim retorna para seu tranqüilo trabalho.

 
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Publicado por em 07/12/2012 em Contos

 

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